Os médicos evitam falar de causas para o câncer pois os danos
resultam quase sempre de um somatório de causas, muitas delas mal
conhecidas ainda pela ciência. Eles preferem usar a expressão "fator
de risco", entendida como sendo tudo aquilo que contribui para o
surgimento dos danos no DNA das células, que se não forem reparados,
podem levar ao câncer. Esse processo de danificação do DNA da célula
mamária pode levar anos e às vezes décadas para se perfazer.
Uma das coisas de que a ciência já não duvida hoje é que os fatores
de risco de câncer de mama ou são produzidos naturalmente por nosso
corpo ou vêm de fora, isto é, do MEIO AMBIENTE. Pesquisas
científicas mostram que os fatores de risco ambientais potencializam
os fatores de riscos internos e podem, sozinhos, provocar danos
irreversíveis no DNA da célula mamária, em condições capazes de
levar ao cáncer.
Outro fato importante a se destacar é que os fatores de risco de
natureza ambiental também afetam o sistema de defesas orgânicas e o
sistema imunológico que o integra. Portanto, têm capacidade para
danificar não apenas o DNA da célula mamária, como também os meios
de que o organismo dispõe para corrigir esses danos.
Sabe-se que são fatores de risco estabelecidos de câncer de mama o
fato de a pessoa pertencer ao sexo feminino (em 99% dos casos o
câncer de mama acomete a mulher), ter mais de 50 anos (mais de 2/3
dos casos ocorrem a partir dessa idade), ter menstruação precoce e
menopausa tardia, nunca ter parido ou parir depois dos 35 anos, ter
suas mamas (não amadurecidas pela lactação) expostas em tenra idade
à radiação ionisante (considerada fator de risco ambiental), a
excesso de hormônios femininos endógenos (produzidos pelo corpo) ou
exógenos (absorvidos de fora), bem como a imitadores de hormônios
femininos (xenoestrógenos) e a desreguladores ou perturbadores
endócrinos presentes no meio ambiente e absorvidos pelas pessoas
através da água, do ar, dos alimentos, das drogas e de outros
produtos.
A explicação dada pelos cientistas é que constitui fonte de risco de
câncer de mama toda e qualquer circunstância ou substância que
intoxique diretamente o DNA das células mamárias ou estimule
fortemente as células das glândulas mamárias a se proliferarem,
principalmente se por muito tempo e a partir do declínio da idade
fértil, que começa por volta dos 35 anos.
No tocante ao meio ambiente, devemos destacar que, em nosso País, as
fontes de risco são muitas e ameaçam a população feminina como um
todo em razão da forte e excessiva utilização de produtos químicos
na agricultura, tais como agrotóxicos, pesticidas e herbicidas
(xenoestrógenos e xenobióticos).
O Departamento de Prevenção e Controle do Hospital de Câncer de
Pernambuco se reporta a um levantamento feito no Estado de
Pernambuco no qual os pesquisadores compararam mulheres que moravam
no Recife e não lidavam com agrotóxicos com mulheres que moravam no
município de Petrolina e lidavam com agrotóxicos. O que se
constatou, explica aquele Departamento, foi que “As mulheres de
Petrolina estavam menstruando mais cedo – fator de risco para câncer
de mama – do que as mulheres da zona urbana. Em termos percentuais,
9,4% das mulheres de Petrolina tiveram sua menarca [1ª menstruação]
antes dos 11 anos de idade contra 4,5% de Recife.” (Cf. Simonin, M.,
Os Hormônios que Tomamos na Menopausa, Recife, 2002).
Embora os estudos sobre o potencial dos agrotóxicos como
desreguladores do sistema hormonal feminino tenham analisado ainda
cada um deles em profundidade, já se estima que esse potencial vai
de grau mínimo a graus muito elevados, tudo dependendo do grau e do
tempo de exposição do corpo feminino a esses desreguladores. Pelo
princípio da precaução, medidas preventivas já deveriam, pois, ter
sido tomadas.
Esses desreguladores endócrinos agem de dois modos: ou interferindo
na forma como o nosso fígado regula a absorção dos hormônios
(metabolismo) ou competindo com os hormônios endógenos (“fabricados”
pelo corpo) na “corrida” para ocuparem os receptores hormonais das
células mamárias.
Uma mesma substância tanto pode agir como desregulador endócrino
como na qualidade de agente xenobiótico, isto é, de agente
“contrário à vida”, capaz de intoxicar e danificar o DNA da célula
mamária, e ainda, na qualidade de xenoestrógeno, isto é, de imitador
do hormônio feminino estrógeno, que estimula a proliferação das
células mamárias.
Pois, bem, muitos organoclorados - gênero do qual fazem parte os
agrotóxicos, pesticidas, herbicidas etc. – contêm substâncias que
são ao mesmo tempo desreguladores endócrinos, xenobióticos e
xenoendócrinos, ou que apresentam os efeitos próprios de cada um
deles ao interagirem umas com as outras em certos compostos químicos
usados na nossa agricultura e na nossa indústria.
Além dessas, a questão ambiental também inclui o uso, sem efetivos
controles, de substâncias radioativas empregadas principalmente em
certos setores da indústria médico-farmacêutica.
Segundo o médico Goldin Rosenberg, nos países industrializados uma
em cada três pessoas terão câncer, mas apenas uma em quatro morrerá.
A cada dia, 40 mulheres descobrem que têm câncer de mama e a cada
dia 12 mulheres morrem no mundo.
O aumento da taxa de câncer corresponde à acumulação nos últimos 40
a 50 anos de produtos químicos sintéticos e tóxicos, radioativos,
persistente e biocumulativos – ou seja, que se acumulam nos tecidos
humanos e se concentram no canal alimentar - além dos ativos que
imitam o funcionamento dos hormônios. Nesse uso indiscriminado ou
abusivo de todas essas substâncias ao longo desses anos, inclui-se
os hormônios femininos farmacológicos que são usados sem controle
pelas mulheres brasileiras, da adolescência ao fim da vida, passando
pela menopausa.
Esses hormônios farmacológicos figuram como substâncias que podem
levar ao câncer de mama em duas monografias da IARC (International
Agence for Research on Cancer) e integrarem o Grupo 1 da lista de
carcinógenos elaborada por aquela conceituada agência da OMS. (Cf.
em Centro International Agence for Research on Cancer, pertencente à
Organização Mundial da Saúde (www.who.int/en/).
É de extrema relevância repetir e destacar que se pode herdar um
gene com defeito (mutação, dano no DNA), e portanto, ter
predisposição para o câncer de mama, mas que é sob a ação cumulativa
de fatores de proliferação celular ou de toxidade para o DNA da
célula, como os xenoéstrogenos e xenobióticos, que esse defeito vai
agravar. Daí a importância de tentarmos controlar a ação ambiental,
pois do meio ambiente provêm quase todas as substâncias que podem
deflagrar precocemente a doença ou mesmo acelerar a proliferação da
mesma.
A aparição do câncer é influenciada tanto pela predisposição
genética, quanto pela exposição a produtos cancerígenos ou
carcinogênicos, além do estilo de vida e do estado geral de saúde.
No câncer de mama, como vimos, o fator hereditário só responde como
causa prevalente por cerca de 5% a 10% dos casos. Estudos recentes
apontam que 20% a 40% dos cânceres estão de uma maneira ou de outra
ligados à alimentação. Aquilo que comemos pode contribuir seja para
nos proteger seja para nos tornar mais vulneráveis ao surgimento da
doença.
De destacar que levantamentos feitos por hospitais e centros de
referência de São Paulo, mostraram que naquele estado a incidência
da doença não só aumentou como quintuplicou entre as mulheres com
menos de 35 anos. (Cf. em Folha de S.Paulo, reportagem de Cláudia
Collucci, de 5/08/2007).
Considerando ainda que os fatores ambientais vêm sendo apontados no
meio científico como responsáveis pela promoção de 80% dos cânceres,
entre os quais o câncer de mama, cabe ao Ministério Público, na luta
pelo direito humano à saúde e à vida, encampar a defesa de um meio
ambiente ecologicamente equilibrado.
Nessa defesa, só através da implementação da legislação ambiental e
da promoçaõ da educação ecológica das crianças, adolescentes e
adultos, a começar da escola, é possível contribuir para combater de
forma eficaz o comportamento poluidor que põe em risco, entre outras
coisas, a saúde e a vida de milhões de mulheres.
Esse tipo de combate, que ataca suas causas e prováveis causas é o
que chamamos de prevenção primária do câncer de mama.
Considerando que a doença já assume áreas de flagelo social no
Brasil, que figura como uma das grandes preocupações da OMS e é
apontada como prioridade em todos os textos brasileiros que tratam
das políticas públicas de saúde da mulher, não há como o Ministério
Público se furtar ao dever de promover a prevenção primária da
doença (não apenas sua prevenção secundária pela detecção precoce),
a começar pela defesa e promoção de um meio ambiente limpo para
todos.