07/07/09| terça-feira

Sobre fatores de risco de câncer de mama: o caso do BPA*

Notícias do Canadá Sobre fatores de risco de câncer de mama: o caso do BPA* O processo de formação de um câncer mamário pode, como se sabe, levar anos ou mesmo décadas para se perfazer. Por outro lado, como se trata de um tipo de doença contra a qual é preciso colocar o máximo de chances do nosso lado, o fato de mantermos em dia nossa agenda de exames ditos "preventivos" não nos dispensa da tarefa de procurar conhecer e reduzir nossos fatores de risco, nos limites, é claro, do que for possível e nos parecer razoável. Também é preciso termos em mente que esse tipo de doença não é simplesmente um drama pessoal mas uma prioridade de saúde pública, reconhecida como tal pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A ciência já sabe que o câncer de mama é causado por um acúmulo de mutações (alterações ou danos) em genes especiais contidos no DNA da célula mamária, genes estes cujo bom funcionamento é essencial para o controle da proliferação celular. Essas mutações genéticas na célula mamária tanto podem ser herdadas como adquiridas. Entretanto, estima-se que somente em 10% dos casos, no máximo, a causa predominante da doença sejam mutações herdadas. As mutações adquiridas resultam de interações desastrosas entre nossos genes e hormônios e fatores ambientais de risco. É o que demonstra um dossiê científico recente, que sumariza mais de 400 estudos e pode ser traduzido assim: "Estado dos Conhecimentos 2008: A Relação entre Câncer de Mama e Meio Ambiente". ("State of the Evidence 2008: The Connection between Breast Cancer and the Environment", Gray J et al, Int J Occup Environ Health 15:43-78, 2009). Alguém perguntou certa vez a Einstein o que era meio ambiente, e ele respondeu prontamente: "Tudo aquilo que não sou eu". Pois bem, partindo dessa definição, tão simples e tão clara, é possível indagar-se: quais são os fatores ambientais de risco para câncer de mama? Os cientistas informam que são todos os agentes oriundos do meio ambiente que, voluntária ou involuntariamente nosso corpo absorve e, uma vez o havendo penetrado, intoxicam ou contribuem para intoxicar o DNA da célula mamária, danificando genes responsáveis pelo controle da proliferação celular. A radiação ionizante, por exemplo, é um desses agentes. Os hormônios femininos também o são. Mas, abro parênteses: há casos em que tanto a radiação como certas substâncias hormonais são e devem ser usadas de forma adequada pela medicina para tratar e curar doenças (inclusive câncer). Coisa bem diversa ocorre com os xenoestrógenos. Estes são substâncias químicas imitadoras do hormônio feminino estrógeno que integram a lista dos chamados perturbadores endócrinos elaborada pela OMS. São encontrados em grande número de produtos e subprodutos da indústria química, tais como agrotóxicos, inseticidas, produtos de higiene e de cuidados pessoais, embora muitos deles possuam fraca ação estrogênica. Os estrógenos farmacêuticos e botânicos, quando descartados como dejetos no meio ambiente também são considerados xenoestrógenos pois o contaminam. O dossiê acima citado relata que alguns xenoestrógenos, mesmo em quantidades mínimas, podem contribuir para tornar as células mamárias de algumas pessoas mais vulneráveis a um câncer no futuro. A combinação com outras substâncias e o momento das exposições é fator importante pois as células mamárias são particularmente sensíveis à ação desses e outros perturbadores hormonais durante o processo de formação das mamas, o que inclui a fase fetal, a primeira infância e a puberdade até a primeira gravidez levada a termo. Vou resumir para os leitores brasileiros o que tenho visto acontecer aqui na América do Norte, onde me encontro, na luta cidadã de canadenses e americanos contra o Bisphenol-A, mais conhecido pela sigla BPA. Trata-se, como já denunciado pela ABRAMPA no congresso nacional deste ano, de um perigoso xenoestrógeno que há vem sendo usado no plástico das mamadeiras, para torná-lo duro, transparente e resistente, e no revestimento epóxi de acondicionantes de comidas e bebidas. Acontece que partículas microscópicas de BPA se desprendem do plástico ou da resina epóxi e se misturam com a comida ou bebida. O processo se intensifica de forma espantosa na presença de calor ou pressão, ou ainda, se o conteúdo for ácido. No início deste ano, os seis maiores fabricantes de mamadeira firmaram acordo com autoridades americanas para não mais vender mamadeiras com BPA; mas, segundo denúncia do Washington Post em 6 de março último, Avent, o maior deles, está exportando seus estoques para países de outros continentes. Aqui no Canadá, o uso de BPA na fabricação de mamadeiras está proibido desde outubro de 2008, e nas prateleiras dos supermercados e farmácias, pode-se ver esta frase, em inglês e francês, nas embalagens das mamadeiras: "without/sans BPA" ("sem BPA"). Confesso que fiquei emocionada ao ler isso. Era a prova palpável de uma pequena grande vitória dos cientistas independentes que há décadas denunciam o BPA, e sobretudo dos consumidores que estão indo à luta em prol de suas crianças. Um grande estímulo, sem dúvida para todos nós, brasileiros! Apesar do pesado lobbying da indústria, o Congresso e os 22 estados e municipalidades americanos se preparam para seguir o exemplo do Canadá e transformar em lei as restrições pactuadas em relação ao uso do BPA. Em abril deste ano, o estado de Minnesota, pressionado por evidências científicas e pelos consumidores, tornou-se o primeiro estado americano a banir legalmente o BPA das mamadeiras e acondicionantes de bebidas e alimentos infantis. Em Maio, foi a vez do Connecticut, que já tinha selado o acordo a que acima me referi com os grandes fabricantes de mamadeiras. Agora no mês de junho, o Senado do estado da Califórnia também aprovou um projeto, conhecido como "Toxics-Free Babies and Toddlers Act (SB 797)", que vai conferir força de lei ao não-uso de BPA nas mamadeiras e acondicionantes de comidas e bebidas destinadas a crianças de até três anos. O projeto seguiu para a votação pela Assembléia. Seu relator, o Sen. Fran Pavley, mostrou que há suficientes provas científicas de que até mesmo as exposições a níveis extremamente baixos de BPA podem causar sérios impactos à saúde. São mais de 200 estudos revelando que a contaminação por BPA, particularmente durante a gravidez e a pequena infância, está associada a um largo leque de efeitos adversos - no curto, no médio e no longo prazo. Entre eles, câncer de mama, próstata e testículo, feminização de fetos machos, infertilidade, puberdade precoce em meninas e outros problemas metabólicos e neurológicos crônicos. Segundo os CDCs (Centros para o Controle e Prevenção de Doenças dos EUA), 93% dos americanos adultos têm BPA detectável na urina e essa quantidade é várias vezes maior em bebês e crianças pequenas devido a seu pouco peso. RECOMENDAÇÕES PRÁTICAS . Como reconhecer que uma mamadeira contém BPA? As mamadeiras no Brasil geralmente são de plástico e contêm BPA. Elas são reconhecíveis pelo fato de serem de plástico rígido, transparente e resistente. Normalmente trazem gravado (quase sempre no fundo) o código PC 7, mas às vezes só o 7, que é um símbolo comum a outros tipos de plástico. . O que fazer para reduzir a contaminação por BPA? Mulheres grávidas e crianças pequenas: evitar beber água de garrafões de plástico (que contêm BPA) bem como comer enlatados (devido ao BPA contido nos revestimentos de resina epóxi); dar preferência ao leite materno; quando usar leite em pó, dar preferência aos que são vendidos em embalagens de papelão; usar mamadeira de vidro, e, se não for possível, usar mamadeira de plástico sem BPA (informar-se junto ao fabricante e autoridades sanitárias); nunca esquentar mamadeiras de plástico contendo comida ou bebida nem colocar comida ou bebida ácida ou aquecida dentro delas; nunca esquentar comida ou bebida em recipiente de plástico ou com revestimento contendo BPA (resina epóxi); nunca colocar comida ou bebida aquecidos nesses recipientes; evitar lavar mamadeiras e outros recipientes contendo BPA em lava-louças com altas temperaturas. Todo o mundo: fazer as escolhas mais seguras possíveis em matéria de embalagem e de estocagem de alimentos, guardando a comida em vidro, cerâmica ou em recipientes à base de aço inoxidável; nunca esquentar comida ou bebida em recipiente de plástico ou com revestimento contendo BPA; nunca colocar comida ou bebida ácida ou aquecida nesses recipientes; evitar lavar mamadeiras e outros recipientes contendo BPA em lava-louças com altas temperaturas. --- *Maristela Simonin com informações de Breast Cancer Fund e Washington Post Journal.