Empreendedor, determinado, corajoso, inteligente, correto, rigoroso, mas
também teimoso, brincalhão, engraçado, proseador, espirituoso, perspicaz,
generoso, irônico e, sobretudo, franco, honesto, honrado, leal e sincero.
Essas eram algumas das características da personalidade marcante do meu
amigo Padre Simões, reconhecidas também por quase todos que o conheceram
e que o admiravam.
Natural de Ouro Preto, o Cônego José Feliciano da Costa Simões teve sua
formação primária realizada no Grupo Escolar Dom Pedro II, e a
sacerdotal iniciada no Seminário Coração Eucarístico de Jesus em Belo
Horizonte e concluída no Seminário Maior e Menor em Mariana (MG).
Graduado em Geografia, História e Ciências naturais pela Faculdade Dom
Bosco de Filosofia, Ciências e Letras em São João Del Rey (MG),
especializou - se em História da Arte Sacra, Barroca e Filosofia da Arte
pela Universidade de Sorbone, Paris, França. Foi assistente em
congressos de arte e museologia na Itália, Espanha, França, Alemanha e
Egito; no Congresso de Cultura e Arte em Santiago do Chile e no
Congresso da Cultura Asteca, Incas, Maias e Pré-Colombianas em Buenos
Aires, Argentina.
De volta às suas origens, o Estado de Minas Gerais, passou a exercer,
além das atividades do sacerdócio e de ampla atividade social, extensa
carreira no Magistério como professor de Filosofia, Teologia e de
História, contribuindo significativamente para a valorização e
divulgação da Arte Sacra e da rica memória da região.
Foi professor de Filosofia e História na Escola Normal de Ouro Preto, de
História da Arte Sacra no Seminário Maior Santo Antônio em Juiz de Fora,
de Humanidades no Seminário Nossa Senhora da Assunção em Mariana, de
História da Arte e Teologia Patrística no Seminário São José, Mariana e
diretor do Colégio Arquidiocesano de Ouro Preto. Era Cônego Catedrático
da Arquidiocese de Mariana (MG), outorgado pelo Arcebispo D. Luciano
Pedro Mendes de Almeida. Foi nomeado pelo Papa João XXIII em 1963, por
meio de Bula Papal, Vigário Colado da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar
de Ouro Preto.
Assumiu desde cedo a bandeira da proteção e da conservação dos bens
culturais em Ouro Preto, apoiando sempre o trabalho do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN e dos seus mais
importantes diretores, como Rodrigo Mello Franco de Andrade e Aloísio
Magalhães. Em virtude de sua relação pessoal desenvolvida com Aloísio
Magalhães em torno das questões da preservação dos bens culturais, foi
escolhido representante de Ouro Preto e de Minas Gerais, para receber em
Brasília os restos mortais do diretor do IPHAN, falecido em 1982, na
cidade de Padova, Itália.
Foi o pioneiro na defesa do patrimônio cultural contra os efeitos
nocivos da poluição atmosférica, quando o movimento verde engatinhava os
primeiros passos na defesa do meio ambiente. Em Ouro Preto, levantou a
bandeira da luta contra poluição proveniente da indústria Alcan Alumínio
Brasil Ltda, que degradava os monumentos e as obras de arte e
prejudicava a saúde do povo ouro-pretano.
Era conhecido pela luta corajosa contra o saque do patrimônio histórico
e cultural. Na década de 60, quando o IPHAN ainda não tinha catalogado
as peças do nosso acervo cultural, iniciou uma luta quase solitária para
recuperar o acervo histórico e artístico extraviado de vários monumentos
religiosos de Ouro Preto, tendo obtido sucesso na maioria das suas
iniciativas. Em 1962 recuperou 18 obras de arte sacra que haviam sido
roubadas de várias igrejas em Ouro Preto nas décadas de 50 e 60. Em
fevereiro de 1996, depois de um processo de oito meses recebeu, em Ouro
Preto, a imagem de Nossa Senhora das Mercês, de autoria do Aleijadinho,
desaparecida desde 1962. Recuperou para a Arquidiocese de Mariana
inúmeras obras ao longo de 30 anos de intensa luta em defesa do
patrimônio cultural brasileiro. Travou batalha incansável contra o
comércio de obras de arte religiosas e profanas, promovido por
antiquários e colecionadores que privatizam e privam os bens culturais
dos seus “verdadeiros proprietários”, o povo brasileiro. Na sua longa
luta para a preservação do patrimônio cultural brasileiro, sofreu também
algumas derrotas. Por exemplo, não conseguiu evitar em 1961 a demolição
da Matriz de Santana em Ferros (século XVIII), MG e em 1966 a demolição
da antiga Matriz Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga (século
XVIII), MG, ambas decididas por plebiscitos suspeitos e executadas em
função de motivações políticas de ocasião.
Foi pioneiro na implantação de pequenos museus em igrejas de Minas
Gerais. Em 1965 criou na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar o Museu
da Prata e Ouro. Coordenou, junto com o Padre Francisco Barroso Filho,
Bispo Emérito de Oliveira, a implantação do Museu Aleijadinho na
Paróquia de Nossa Senhora da Conceição e em 1987 inaugurou o Museu de
Arte Sacra do Carmo em Ouro Preto.
Com sua equipe de assessores, coordenados pelo seu “braço direito”, o
historiador Carlos José Aparecido de Oliveira, reorganizou as ações e os
objetivos do Museu de Arte Sacra em 1989, transformando-o em uma
fundação que, além de guardião do patrimônio de arte da Paróquia do
Pilar, passou a gerir e preservar o seu rico patrimônio cultural. Entre
os anos de 1984 e 1986, realizou o inventário dos bens móveis e
integrados da Paróquia do Pilar, em parceria com a FIAT Automóveis e a
Fundação Roberto Marinho. Reorganizou o sistema de visita na Matriz de
Nossa Senhora do Pilar, aumentando em menos de uma década a visitação de
13 para 120 mil pessoas por ano.
Sob sua liderança a Paróquia do Pilar, detentora de um dos mais valiosos
patrimônios culturais do Brasil, deu inicio a um amplo programa de
conservação dos 23 monumentos religiosos e dos bens imóveis tombados
pelo IPHAN - Casa do Noviciado da Ordem Terceira de Nossa Senhora do
Carmo, Casa da Ordem Terceira de Nossa Senhora das Mercês, Residência
Paroquial, Centro Social. Neles foram reorganizados e implantados o
Arquivo Histórico, o Atelier de Restauração de Bens Móveis, a Secretaria
Paroquial, a Escola Livre de Música, a Orquestra Jovem de Ouro Preto e a
sede que abriga a administração do Museu de Arte Sacra de Ouro Preto.
Além dos bens imóveis com cerca de oito mil objetos de arte sacra e
profana, foram catalogados no inventário de bens móveis da Paróquia de
Nossa Senhora do Pilar sete metros cúbicos de documentos manuscritos e
impressos do Arquivo Histórico Eclesiástico dos séculos XVIII a XX e
acervos de partituras da música sacra colonial mineira dos séculos XVIII
e XIX. Hoje o museu preserva objetos de arte sacra e profana,
catalogando-os, sistematizando-os e disponibilizando o seu rico acervo
tanto para exposição permanente e visitação pública, quanto para a
investigação histórica e científica.
Padre Simões apoiou, com a presença de sua equipe, a preservação de
monumentos religiosos e até de capelas particulares, ermidas e oratórios
na Arquidiocese de Mariana e em outras Dioceses. Em Salvador, Bahia, com
o Cardeal Brandão Villela, promoveu ações na defesa de bens móveis
religiosos. Foi Presidente de Arte Sacra da Arquidiocese de Mariana e
membro conselheiro do Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e
Artístico - IEPHA/MG, na gestão do governador Tancredo Neves. Foi
consultor para Ouro Preto, como Patrimônio Cultural da Humanidade. Com o
prefeito Angelo Oswaldo de Araújo Santos, representando Ouro Preto e
Minas Gerais em homenagem histórica em Lisboa, foi testemunha no
reconhecimento de Tiradentes, Herói da Liberdade, Brasil-Portugal.
Apoiou as irmandades religiosas como forças de espiritualidade e como
guardiãs das suas riquezas artísticas e culturais. Defendeu a cultura
imaterial e as tradições de arte, folclore e a religiosidade popular,
seus saberes, lugares, celebrações e formas de expressão.
Por este valioso trabalho em defesa do patrimônio cultural material e
imaterial brasileiro, o Padre Simões foi condecorado com uma série de
medalhas e prêmios, dentre as quais se destacam: Medalha do Aleijadinho
(1974), Medalha de Prata da Inconfidência (1980), Medalha do Dia do
Estado de Minas Gerais (1982), Medalha Santos Dumont, (1984), Medalha
Bernardo Pereira de Vasconcellos (1987), Grande Medalha da Inconfidência
(1987), Medalha João Veloso, Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade
(1987) e Prêmio Nacional de Cultura (1996).
Foi homenageado por diversas entidades: como Amigo do Nono Batalhão da
Polícia Militar (1976), foi “Destaque” pelo Jornal Opção Regional
(1985), recebeu "Congratulações por sua incansável luta em defesa do
Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Ouro Preto e Minas Gerais"
pela Câmara Municipal de Belo Horizonte (1986), foi Sócio Honorário do
Grêmio Literário Tristão de Atayde (1987), recebeu a Ordem do Mérito
Legislativo de Minas Gerais (1987), o Mérito distintivo da Escola de
Minas e Fundação Gorceix de Ouro Preto (1987) e Honra ao Mérito pela
Câmara Municipal de Ouro Preto (1988). Em 1988, em audiência particular
com o Papa João Paulo II, recebeu a "Cruz Pontifícia de Prata pela
defesa da Arte Cristã, da Religiosidade Popular e do Folclore Regional"
Além de amigo, Padre Simões era um dos mais importantes parceiros do
IPHAN na cidade. O Museu de Arte Sacra do Carmo, entidade civil sem fins
lucrativos que ele criou em 1985, captou nos últimos anos recursos por
meio da lei de incentivo federal - Lei Rouanet e administrou as obras de
restauração da Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Brancos do Padre
Faria, concluída em 2004 e da Capela do Senhor Bom Jesus das Flores do
Taquaral, concluída em 2007. Atualmente o Museu está gerenciando a obra
de restauração da Igreja de Santa Efigênia e o projeto de implantação do
Parque Arqueológico do Morro da Queimada em Ouro Preto. Estão em
andamento também os projetos para captação de recursos para a
restauração das igrejas de São José e São Francisco de Paula e de
restauração e conservação de todos os chafarizes de Ouro Preto, uma das
suas diversas paixões na cidade.
Recentemente o trabalho do IPHAN e do Padre Simões vem sendo divulgado
em revistas de grande circulação nacional. Duas reportagens foram
publicadas, ambas de autoria de Heitor e Sílvia Reali. A primeira, em
dezembro de 2008, na revista "Leaders" com o título “Os santos estão
voltando”, enviada a mais de 30 mil empresários brasileiros e a segunda,
em janeiro de 2009, em uma das melhores revistas de reportagem do Brasil,
a "Brasileiros", com o título “O caçador de obras perdidas”.
Padre Simões nos deixou no último 20 de janeiro, dia de São Sebastião,
um guerreiro como ele, mas o trabalho que pensamos conjuntamente não vai
parar, vai continuar, só que agora em seu nome.
Padre Simões é DEFENSOR ETERNO DE OURO PRETO e DO PATRIMONIO CULTURAL
BRASILEIRO.
Arquiteto, doutor em restauração de monumentos pela Universidade de Roma
– “La Sapienza” - é diretor do IPHAN de Ouro Preto.
